sexta-feira, 5 de novembro de 2010

caranguejo

A noite quente traz velhas lembranças: uma bisavó fazendo em casa, com manicure, as unhas dos pés, de molho na bacia. Espuma amarela entre os dedos.

O chão em sombra na quentura da tarde. Azulejo gelado da cozinha.

O pai, o passeio inesperado ao Floresta, uma cachoeira com frescos raios de sol penetrando as folhas, seu esqueleto. Na água gelada, sou recém-nascida. Tenho a vida toda.

Nadar sem saber, nas águas salobras do rio de bichos. Contrações nas pernas, o único apoio possível contra um beliscão animal, a invisível e mole bengala d'água.

A noite quer se molhar nas memórias desses dias.

Banhos seguidos acabam por tirar o sal do corpo, exausto de calor. O bacalhau troca de água como eu troco de roupa, fugindo do suor pela madrugada. Eu acabo nua, e ele no domingo, sem gosto.

Mas está servido. A moça tá servida? As moscas já rondam e os besouros perambulam na mesa, carregando nas costas as caixas de remédio. Servem o cafezinho.

Sacode a toalha agora no quintal. Voa arroz bacalhau remédio batata moscas besouros, toda a fauna do verão. Cantam. E a noite está encharcada.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Cenas de família

A raiva não é tanta que mate,
por isso a gente discute e sobrevive
e vive de.

A dor é tanta, mas só de cabeça.
Toma aspirina, minha filha, que passa.
A ira bebe-se diluída no líquido muito doce.
E o amor chega em pílulas de raiva
concentrada à tona do lindo lago.

Tal é como, e só,
topamos essas saliências.
Com o canto dos lábios beijado
ver de relance a totalidade da vida.

Ou só olhar o sol
em seu eclipse.
A imagem boiando na bacia.
O fogo através do negativo fotográfico
lambe cabelo de férias
na viagem à fazenda
às crinas trançados,
cenas da família.
O astro e o rosto,
quem se examina?

O amor vem golfado
em contrações involuntárias
na epilepsia.

O amor engole a língua do amor
e peixe, - submerge.