sexta-feira, 5 de novembro de 2010

caranguejo

A noite quente traz velhas lembranças: uma bisavó fazendo em casa, com manicure, as unhas dos pés, de molho na bacia. Espuma amarela entre os dedos.

O chão em sombra na quentura da tarde. Azulejo gelado da cozinha.

O pai, o passeio inesperado ao Floresta, uma cachoeira com frescos raios de sol penetrando as folhas, seu esqueleto. Na água gelada, sou recém-nascida. Tenho a vida toda.

Nadar sem saber, nas águas salobras do rio de bichos. Contrações nas pernas, o único apoio possível contra um beliscão animal, a invisível e mole bengala d'água.

A noite quer se molhar nas memórias desses dias.

Banhos seguidos acabam por tirar o sal do corpo, exausto de calor. O bacalhau troca de água como eu troco de roupa, fugindo do suor pela madrugada. Eu acabo nua, e ele no domingo, sem gosto.

Mas está servido. A moça tá servida? As moscas já rondam e os besouros perambulam na mesa, carregando nas costas as caixas de remédio. Servem o cafezinho.

Sacode a toalha agora no quintal. Voa arroz bacalhau remédio batata moscas besouros, toda a fauna do verão. Cantam. E a noite está encharcada.

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